Por muito tempo, eu aceitei a explicação que o setor inteiro tratava como verdade. Para tornar essa lógica visível, vou partir de um exemplo simples: uma unidade hipotética de 1.000 toneladas por mês, que representa centenas de operações reais e expõe, em números, o que acontece todos os dias na prática.
No papel, a meta era objetiva: mil toneladas por mês. Planilha organizada, cronograma fechado, investimento aprovado.
No campo, a realidade sempre estacionava em algo entre seiscentas e seiscentas e cinquenta toneladas. E ninguém parecia realmente incomodado com isso.
A diferença era tratada como um detalhe. Uma margem “normal”. Um ajuste inevitável entre o que se planeja e o que se executa.
O problema é que esse raciocínio cria anestesia.
Quando você normaliza a perda, você para de investigá-la.
E quando você para de investigar, ela se repete todos os meses, todos os anos.
Aquelas trezentas e cinquenta toneladas não evaporam.
Elas não desaparecem por mágica.
Elas são perdidas, etapa por etapa, decisão por decisão.
E quase ninguém faz a pergunta que realmente importa:
onde, exatamente, essa produção está sendo roubada?
Depois da colheita florestal, surge um dos maiores pontos cegos do setor: a secagem. Ou melhor, a ausência dela.
Quando a madeira entra úmida, o forno não trabalha para carbonizar. Ele trabalha para evaporar água.
Parte da energia térmica do ciclo é desperdiçada em algo que não gera produto.
O tempo de processo aumenta.
O rendimento cai.
O carvão perde massa.
É uma perda invisível, porque não faz barulho.
Não gera alarme.
Não aparece em relatório técnico.
Ela só aparece no faturamento.
Mês após mês.
Quando finalmente o foco se volta para o forno, o erro se repete em outro nível.
Projetos com chaminés pequenas, baixas, subdimensionadas.
O efeito chaminé, que deveria ser o coração do sistema, simplesmente não acontece.
Sem fluxo adequado, o forno perde tração térmica.
A carbonização fica irregular.
O ciclo se alonga além do necessário.
O rendimento cai mais um pouco.
O problema não é falta de aço, nem de investimento.
É falta de cálculo.
Projeto de forno não é desenho bonito.
É física aplicada.
Diante de um forno que não respira, a solução mais comum é instalar um queimador.
Na teoria, ele deveria resolver. Na prática, muitas vezes piora tudo.
Queimadores mal dimensionados criam contrapressão.
Retêm fluxo.
Sufocam o sistema.
Em vez de liberar energia, passam a travar o processo.
Isso não é exceção.
É padrão.
Já vi unidades produzindo menos depois de instalar queimadores caros, justamente porque ninguém integrou o queimador ao sistema como um todo.
Ele vira um acessório isolado, não uma engrenagem funcional.
Quando o ciclo finalmente termina, a perda continua.
Resfriamento sem método gera quebra de carvão, gera pó.
Provoca incêndio.
Cria risco operacional.
E pó ninguém compra.
Fornos sem manutenção racham, perdem vedação, perdem controle térmico.
A produção deixa de ser apenas menor.
Ela passa a ser instável.
Aqui, a perda já não é só econômica.
Ela se transforma em risco.
Mesmo assim, existe um erro ainda mais profundo.
A maioria das unidades nunca mediu COM O MÉTODO CERTO a curva real de carbonização.
Sem curva, o processo vira suposição, com curva sem método erro operacional repetido infinitamente.
A temperatura sobe quando “parece” que deve subir.
Cai quando alguém acha que já deu.
Cada desvio consome madeira.
Cada atraso mata rendimento.
Já vi plantas com supervisão, automação e sensores de ponta produzirem menos do que sistemas simples, bem operados.
Não falta tecnologia.
Falta método.
O segredo nunca esteve no painel.
Sempre esteve em entender o processo físico que acontece dentro do forno.
Por isso, afirmo sem receio:
em muitos casos, retirar automação e aplicar técnica gera mais carvão.
Quando você soma todos esses erros — floresta, secagem, projeto, fluxo, queimador, resfriamento e curva — o resultado é sempre o mesmo.
Nove em cada dez unidades produzem entre vinte e quarenta por cento abaixo da meta.
Ano após ano.
A perda vira rotina.
A explicação vira cultura.
E a solução vira comprar carvão mais caro de quem conseguiu produzir direito.
Vamos tirar isso do campo da sensação.
Uma unidade projetada para mil toneladas por mês, produzindo setecentas, perde trezentas toneladas mensalmente.
Em doze meses, são três mil e seiscentas toneladas que deixaram de existir.
Multiplique isso por um preço médio de mercado.
O número passa facilmente de milhões por ano.
Não é um erro operacional.
É um rombo estrutural.
A saída nunca foi discurso motivacional.
Nunca foi “apertar a equipe”.
Nunca foi prometer mais esforço.
A saída é engenharia aplicada, com método dominado.
Padrão rigoroso de colheita, baldeio e transporte.
Secagem tratada como etapa produtiva, não como detalhe.
Projeto de forno com efeito chaminé calculado, não estimado.
Queimador integrado ao sistema, não pendurado nele.
Fluxo térmico calibrado com curva real.
Resfriamento tratado como processo contínuo, com manutenção.
Produção não se pede.
Ela se libera quando o sistema deixa de travar a si mesmo.
No fim, a escolha é simples, embora desconfortável.
Ou você aceita fazer parte dos noventa por cento que nunca fecham a conta.
Ou decide operar como os poucos que entendem o processo de ponta a ponta.
A diferença não está na sorte.
Não está no preço da madeira.
Não está no tamanho do forno.
Está na engenharia aplicada com consciência.
Na Ignis Bioenergia, eu não vendo ilusão.
Eu entrego produção que fecha.
Porque dobrar produção não é promessa.
É consequência.
Daniel Camara Barcellos
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Engenharia que transforma limite produtivo em resultado estrutural.